QUARTA PARTE
NA TANERNA O JOGO DE CARTAS
Tornara-se hábito para
Victor freqüentar a taberna todas as noites. Jogava cartas e, sempre que
possível, pernoitava ali mesmo na companhia de alguma jovem cortesã.
Nesta noite em especial,
Victor como por vezes ocorria, interpelou um jovem que lhe vendia ópio e
haxixe. Além de um pó afrodisíaco o qual misturava ele no vinho, o que tornava
mais intensas suas noites de prazer com a cortesã Lídia a de sua preferência.
Sentara-se Victor numa
mesa de jogo onde ele e mais três jovens costumavam disputar algumas partidas
de cartas.
Foi então que
repentinamente Victor olhando para a entrada da taberna reconheceu Nebro, que
muito bem trajado, entregava o sobretudo e o chapéu ao velho porteiro.
Victor de imediato levantou-se de seu
lugar à mesa de jogo e indo em direção ao visitante inesperado, dele indagou:
VICTOR
Que
fazes aqui? Acaso te invoquei eu?
Ao
que Nebro retrucou:
NEBRO
Que idéia fazes de mim mortal petulante, acaso pensas que não tenho eu
vontade própria? Posso perfeitamente materializar-me onde bem me aprouver. É
obvio que decidi vir aqui esta noite em parte porque sabia que te encontraria
neste antro. Por outro lado é meu objetivo divertir-me também. Sendo assim
regressa a tua mesa de jogo e deixa-me em paz. Não te comprometerei em nada,
estejas sossegado, e se precisares de mim não exites em me chamar.
Não demorou muito para que
Nebro com sua elegância e porque não dizer beleza, atraísse a atenção das raparigas
todas que se encontravam na taberna. Mantinha porém, propositalmente, uma
atitude de descaso e indiferença. Pediu uma bebida forte, mistura de licor de
anis com whisky.
Foi então que quatro rapazes
sentados numa mesa próxima ao balcão convidaram-no a tomar assento junto a
eles. Nebro assentiu de imediato. Os rapazes tomavam vinho e perguntaram a Nebro
qual seu nome e de onde vinha? Pois nunca o haviam visto ali antes.
Nebro disse chamar-se Armand
e era natural de Paris, acrescentando: “Pouco divertimento há por aqui. A
música é senão monótona e cansativa aos ouvidos. Bom seria se tivéssemos um
ótimo mágico a nos alegrar com suas peripécias e quem sabe um grupo de
dançarinas e uma pequena orquestra”.
Hans, um dos rapazes disse
então:
- Concordo plenamente
contigo, mas creio que o faturamento da casa não permita tais espetáculos.
Nebro acrestou:
- Bem... Pelo menos esta
noite podemos nos divertir um pouco mais além da medida.
Karl, um dos outros rapazes
indagou:
- Que queres dizer com isso?
Nebro respondeu:
- Logo verás! – E
dirigindo-se a um homem velho que servia as mesas solicitou uma taça de vinho.
Em seguida dirigindo-se aos quatro rapazes disse que esvaziassem suas taças
pois queria fazer um teste com eles.
O velho trouxe a taça de
vinho e Nebro então disse aos rapazes:
- Eis aqui esta taça de
vinho. Proponho que ela seja passada de mão em mão, e cada um tome um gole de
seu conteúdo. E veremos no que dá.
Um dos rapazes então comenta:
- É estranha esta tua
proposta, afinal que novidade pode haver de especial em fazer rodar uma taça de
vinho entre cinco cavalheiros numa mesa?
Nebro sem nada responder
simplesmente sentenciou:
- Bem comecemos da direita
para a esquerda:
- Como te chamas mesmo,
indagou Nebro do primeiro rapaz a sua direita?
- Karl.
- Pois bem Karl, entorna um
gole da taça e dize-nos qual seu conteúdo.
- Com mil diabos, é pura
vodca!
- Agora tua vez, - disse
Nebro ao segundo rapaz. Como te chamas?
- Louis.
- Muito bem toma um gole da
taça. Este exitou, porém entornou um gole da mesma exclamando:
- Por Deus é pura cerveja,
e das boas!
- Agora tu, disse Nebro ao
terceiro rapaz. – Como te chamas?
- Hermann.
- Muito bem Hermann prova
tu também da taça e dizes qual seu conteúdo.
Este levando a taça a boca prova e diz:
- Isso é impossível é puro whisky.
- Agora tu o último, como
te chamas:
- Thomas.
- Pois bem Thomas prova tu
também da taça e revela-nos qual o conteúdo da mesma.
Thomas segura a taça nas
mãos, e toma um gole, sua intenção era na verdade esgotar o conteúdo da mesma
porém, repentinamente, atira a taça ao longe horrorizado:
- Sangue! Isto puro sangue!
Nebro dá uma gargalhada e
dirigindo-se aos quatro rapazes declara:
- Não se espantem meus
amigos, isto não é nada mais que um ato de ilusionismo.
Os rapazes o olhavam meio
aterrorizados, perplexos... Foi então que Louis o interpelou:
- Armand, é este o teu nome
não é mesmo? – E acrescentou:
- De que mais és capaz? Pois
alguém que realiza um feito destes, deve fazer outros mais grandiosos.
Ao que Nebro respondeu:
- Deveras poderia realizar
outros feitos que os deixariam senão extasiados pelo menos impressionados. Mas,
não estou aqui com este objetivo. Quero só usufruir do ambiente. Na verdade me
satisfaria ver uma orgia, homens e mulheres dando rédeas soltas a seus
instintos.
Hermann então, um dos outros
rapazes intervêm:
- Espero que não vos seja
por ofensa cavalheiro, mas parece-me mais tu uma manifestação demoníaca que um
homem de carne e osso.
Ao que Nebro respondeu:
- Que sabes tu das
manifestações demoníacas para fazer tal afirmação?
- Ora, retruca Hermann, há
por exemplo os chamados vampiros que segundo a lenda popular são seres noturnos
que se alimentam de sangue humano e fogem da luz do dia. Poderias perfeitamente
ser um desses seres.
Ao que Nebro acrescenta:
- Garanto-te meu amigo que,
caso fosse eu um vampiro, não estaria a perder meu tempo numa taberna buscando
divertimento com homens de bem.
Estaria antes a espreitar
becos e esquinas escuras onde pudesse com facilidade alguma presa agarrar
desprevenida e saciar-me de sangue.
Hans, um dos outros rapazes insiste:
- Quer dizer então que na tua
opinião não existem as tais criaturas os vampiros?
Nebro:
- Meu caro jovem já bem o
disse antigo pensador. “Mais mistérios há entre os céus a terra do que pode
deduzir a tua vã filosofia”. (*) Shakespeare: Hamalet.
Nisso aproxima-se Victor de
Nebro e diz a seu ouvido que precisa falar-lhe a sós. Nebro pede aos jovens
desculpas por ter que retirar-se e segue Victor.
Nebro então diz a Victor:
“Olha, eis que me apresentei como Armand, cuida pois por tratar-me por esse
nome”. Victor assente que sim com a cabeça. Acrescentando de imediato:
- Estou numa disputa de jogos
de cartas e já perdi muito dinheiro. No entanto a questão não é esta, mas sim
que sei que estou sendo trapaceado.
Nebro:
- E que queres que eu faça?
Victor:
- Quero que usando de teus
poderes me faça de trapaceado em trapaceador. E no final do jogo que tu me
sejas por paraninfo numa aposta que hei de travar com aquele que ora me toma
por tolo e me arrebata o dinheiro a rodo.
Nebro:
- Pois bem, leva-me até a
mesa de jogo e apresenta-me como amigo teu interessado em participar da
disputa.
- Vem comigo e assim farei.
– Disse Victor.
Retornando à mesa de jogo
Victor apresenta Nebro como um amigo seu que é dado a jogos de cartas e não
perde a oportunidade de uma boa disputa. Não recuando nunca a nenhum desafio no
que se refere a um baralho disputado à altura, pois é homem muito rico e não
teme nenhuma aposta.
Os jogadores o acolhem com
entusiasmo e certa medida de ironia, o que levou Nebro logo de imediato a
subestimar com um imperceptível sorriso de satisfação aqueles mortais vaidosos
e petulantes, que na certa se acreditavam capazes de trapacear o próprio diabo.
Logo de início Nebro retira
do bolso de seu colete um baralho seu e exige que seja incorporado como cartas
extras, ou então que se substitua um dos baralhos pelo seu. Tratava-se a
disputa de cartas de um jogo hoje pouco conhecido. Um misto do tradicional Eleusis
e o Escopa de Quinze. Um dos baralhos era usado como refugo, ou seja, um baralho
completo dos quais o carteador sacava cartas e distribuía aos jogadores quando
estes solicitavam.
Os jogadores que já se
encontravam na mesa de início demonstraram certo constrangimento à proposta de
Nebro de incorporar um baralho seu, mas após verificarem as cartas não opuseram
objeção. Com a chegada de Nebro o número de jogadores era cinco. Nebro exigiu
ainda que se convidasse mais alguém para jogar, pois desejava fazer parceria
com seu amigo Victor. Não demorou muito para que um dos jogadores conseguisse
mais um comparsa. Um homem de meia idade e de olhar astuto que se encontrava no
balcão da taberna, tomando uma bebida e
tentando convencer uma cortesã a passar a noite em sua companhia.
Deu-se início ao jogo.
Foram distribuídas as cartas conforme as regras do jogo e Nebro logo se deu
conta da maracutaia dos jogadores, que usavam de truques para ele banais, com o
objetivo de trapacearem a ele e a Victor. Qual não porém, a surpresa de Victor,
quando ouviu Nebro a alto e bom tom de voz lhe dizer que carta deveria jogar.
Olhou temeroso os companheiros na mesa e não percebeu alteração nas feições de
nenhum deles. Deu-se conta então de que só ele ouvia a voz de Nebro. Quando não
tinha a carta, balançava a cabeça e Nebro em resposta lhe dizia: “Solicite uma
carta ao carteador”. E para espanto de Victor a carta que lhe vinha às mãos era
justamente a carta indicada por Nebro.
Desta forma em poucas
partidas Victor conseguiu recuperar tudo o que perdera e ainda quebrou a banca.
Os demais jogadores estavam em pânico, não sabiam o que fazer, pois não havia como
acusar Victor ou Nebro de trapaça.
Terminado o jogo nenhum
dos jogadores, com exceção de Victor e Nebro, tinha condições de erguer
apostas. Victor então dirigiu-se a um dos jogadores, aquele que o havia
trapaceado, e disse:
- Senhor Hoss, eis que
tenho uma aposta a lhe propor, uma disputa na verdade.
- Estou pronto a
aceita-la – disse o outro.
- Pois bem, eu o desfio a
num prazo de quinze dias nos reencontrarmos aqui nesta taberna trazendo por
oferta o talismã que a cortesã Lidia carrega junto ao seio. Aquele que perder a
aposta deverá ceder ao outro uma quantia de mil dobrões em ouro. E então,
aceitas o desafio?
Ao que o senhor Hoss
respondeu:
- É deveras um desafio em
tanto, pois ambos sabemos que Lídia não tira do pescoço o talismã por nada
deste mundo.
Victor então acrescenta:
- Pensava que eras do
tipo de homem que aprecia grandes desafios, mas se queres retroceder de minha
parte não me importo. O que consegui arrebatar no jogo de cartas de hoje em
muito já acresce meu capital. Estou a lhe propor uma forma de reaver o que
perdeu.
- Muito bem aceito a aposta. – Concluiu
o senhor Hoss.
Na verdade o único intento
de Victor era humilhar mais ainda aquele facínora. Vingar-se mesmo por tê-lo
tomado por um burguês idiota, do qual poderia arrebatar o último tostão do bolso.
Nebro nada disse quanto à disputa. Só sabia
que mais uma vez teria de intervir para que na certa Victor tivesse êxito em
seu intento.
Separam-se então os
jogadores e Nebro regressou à mesa onde continuavam sentados a beber os rapazes
que se viram atemorizados com o que para eles foi muito mais do que um simples
truque de ilusionismo. Divagavam sobre os vampiros e outras manifestações
demoníacas, como as bruxas e alguns alquimistas.
Nebro eximiu-se de expressar qualquer
opinião categórica aos rapazes sobre o assunto.
Foi quando então olhando
para o balcão da taberna de soslaio viu um jovem de características bem
peculiares. Dado a trejeitos, trajava-se de modo extravagante, conjugando as roupas
num colorido exclusivo. Nebro logo concluiu tratar-se de um sodomita.
Victor estava sentado numa
mesa próxima ao local onde encontrava-se o citado rapaz. Nebro ficou atento e
não pode deixar de perceber os olhares furtivos que este lançava em direção a
Victor. Mais uma vez Nebro solta uma gargalhada, o que levou os rapazes à sua
volta a indagar qual o motivo de tal
procedimento. Nebro desculpou-se, pediu licença e afastou-se.
Foi então até o encontro de
Victor e discretamente lhe disse ao ouvido:
- Vês aquele jovem de
trejeitos efeminados e que traja uma verdadeira fantasia, tal o colorido de
suas vestes?
Victor respondeu que sim.
- Pois bem ele está a te
flertar já por bom tempo.
Ao que Victor de pronto
respondeu:
- E o que tem isso? Nunca
fui eu dado a relacionar-me com sodomitas.
Nebro então insistiu:
- Há sempre uma primeira vez
para tudo. E presta atenção no que te digo, procura aproximar-se dele e faz por
onde mostrar interesse. Estás lembrado de tua disputa com o velhaco Hoss?
Ao que Victor mais uma vez
responde que sim.
- Pois bem, - continuo
Nebro – propõe ao rapaz que convide a cortesã Lídia para uma noite de orgia a
três, você, ela e ele. Impõe porém, a condição de que o rapaz durante o ato de
luxúria e lascívia, retire do pescoço de Lídia o talismã. Garanto-te que desta
forma será bem mais fácil para ti, conseguir tal intento. Pois na certa haverão
de envolver-se os três em carícias. Tu
mais ávido em responder as de Lídia, enquanto ele só interessado que o possuas,
terá chance de lançar mão do talismã. E uma coisa é certa meu amigo, possuir um
homem a uma mulher é algo comum, bem como a um sodomita um homem. Isso não
passa de uma questão moral. Ademais reflete bem e verás se não tenho razão.
Victor refletiu então nas
palavras de Nebro e conclui que este estava certo. Procedeu então naquela mesma
noite, de acordo com suas palavras. Abordou o jovem efeminado, fez a proposta e
este aceitou.
Já no dia seguinte tinha
Victor em mãos o talismã e quinze dias depois, conforme o combinado, tendo
Nebro por testemunha recebe das mãos do velhaco Hoss os mil dobrões de ouro.








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