“PROMETEU ARREPENDIDO”
Como dizer o que trago no coração? O que
ora vivo e descubro de mim?
Só sei que emergi do mais profundo e
inevitável conflito. Um conflito entre eu e eu mesmo. Uma verdadeira
adversidade contra minha própria pessoa. Creio que possa falar numa ausência de
personalidade. Um caráter dissoluto.
Hoje sei que por um vasto tempo
pretérito estive nada mais que perdido de mim. Ou talvez seja mais acertado
dizer, imerso numa plena ausência de identidade.
E para chegar ao que hoje sou, tive que
recolher como que estilhaços de meu eu. Reconstituir a mim mesmo como uma vaso
que se quebrara.
Minha alma, ora afundando-se tragada por
um pântano nada misericordioso, ora atribulada por meu proceder inconseqüente. Como
que quis migrar de meu corpo para outras paragens.
Irreverente, porém débil ao mesmo tempo,
nunca soube em verdade, por exemplo, o que era uma alegria, ou um princípio de
amor próprio.
Buscava ansioso como que identificar e
definir meus sentimentos, minhas emoções. Pois o que se deu é que por longo
tempo mantive-me como que perdido de mim.
Espelhava-me no outro, buscava no outro
aquilo que seria eu mesmo. Refletia uma rigidez de princípios, normas, regras e
crenças, que incorporei de forma artificial e desarticulada. Isso me era por
verdadeira perdição, ânsia de um querer da morte, do cessar de existir.
Sedimentado havia em mim, apenas o
rudimento das coisas sutis, e, penso comigo, generalizadas da infância. Meu
conflito era o de um homem que se debatia com uma dor impossível de ser
expressa. Uma dor que para ser definida é necessário que se indague qual a
natureza dela. Não eu indagando de mim para mim mesmo, pois não encontraria
jamais a resposta. Alguém deveria que inquirir de mim, para que eu pudesse
participar os sintomas de meu padecer e assim ter, quem sabe, uma resposta.
Obter um nome para uma possível doença assim o seja.
Trilhei caminhos áridos, bem como a vida
se apresentava numa vastidão de areia a ser vencida, sem promessa de um
possível oásis.
O hoje nunca me bastava, o amanhã não me
satisfazia e o ontem me era por decepção.
Renegava comigo mesmo haver
possibilidade de curativos para minhas feridas. E assim como afirmei não haver
um princípio de amor próprio, nunca tive medida de amor ao próximo, nunca soube
como aferir um possível limite de caridade.
Portanto, amor e ódio, tristeza e
alegria, escoavam de mim como um rio que despenca suas águas numa cachoeira,
reunindo aí suas possíveis vertentes.
E solitário ou não, o que eu em
realidade me constituía era numa espécie de aborto, que sobrevivendo fora de
seu habitat natural, necessitava de
útero para sorver a seiva vital.
Posso dizer também que seria como uma
lagarta que se desprendendo de seu casulo não alcançou a fase adulta, sua
completa metamorfose para projetar-se em vida.
E seria assim como se em relação ao meu
meio social não passasse de algo enxertado. Ou talvez melhor dizendo, uma
parcela amputada de um corpo, que insiste em sobreviver.
Na verdade o que sempre houve em mim foi
uma cisão, como que uma ruptura entre meu cérebro e meu coração.
Se me colocava a pensar a vida,
tornava-me substancialmente pensamento. Se me punha a senti-la era abstrata e absolutamente
sentimento.
A parte física sempre foi uma máquina
que pouco padeceu. Poucas e efêmeras enfermidades me afetaram na vida.
E me vi então a certa altura a
desatolar-me deste lamaçal, num processo que chamei de inverter e desinverter o
binóculo. Quando sofria era porque focava o binóculo no seu modo errôneo de
uso, o que me restringia a capacidade de ver a vida em sua plenitude, quando
havia prazer o binóculo encontrava-se ajustado.
E então agarrei-me aos primeiros
“latejar do prazer”, até chegar mesmo a sentir meu prazer como que a inundar a
mim e ao mundo.
Porém a obra não se concluira aí, meu
resgate da dor, meu poder de dispensar uma possível tábua de salvação ainda não
se dera, pois andar com meus próprios
pés, como quem nada e sabe poder ser por tempo necessário senhor das águas, e
portanto não necessitado de auxilio para enfrentá-las. Isto comigo ainda não
ocorrera.
Deduzi pois que meu erro primeiro, era
focar o dardo buscando atingir o alvo em algo que não era eu. E se me voltava
para Deus, ele tinha que ser sempre ou por socorro e misericórdia, ou um
trovejar ininterrupto de bênçãos e possibilidade de milagres. O milagre... Ah! O
milagre... Como me iludi. O milagre quem tinha que realizá-lo era eu. Ou talvez melhor dizendo é que nunca houvera dado o primeiro passo em
busca do milagre. E isso porque me escapava a fé, a fé primeiramente em mim
mesmo.
E recolhi meu próprio pó, e me ergui do
meu próprio barro, configurando-me naquilo que hoje sou.
E então disse certa vez para mim, como
quem revela para si próprio o que é por natureza mistério, enigma imposto por
um oráculo: “há dias plenos, dias satisfatórios, dias parcialmente
satisfatórios e dias insatisfatórios; e nisso se constitui a felicidade humana”.
E
respirei um pouco mais aliviado.
Havia de avançar mais, pois cedo como
procurei expor, rompeu-se a membrana de mim, a célula vital em que se constituía
minha integralidade.
Descobri então que na vida, meu posto
não passava de um aprendiz. E o mestre, um possível mentor era o tempo.
Se deixamos vazar todo o tempo e não
viramos a ampulheta da vida, morre-se – ainda que o coração bata, ainda que o
ar nos atravesse pela boca e narinas rumo aos pulmões.
Mas era necessário o imprescindível,
tornar-se herói. E para isso, qual não foi o meu espanto, quando me dei conta
que o gigante a ser vencido era eu mesmo.
Quando venci esta última batalha então
se deu como que a consumação... A possibilidade da plenitude.
E vi-me então como um Prometeu não
punido por Zeus, que roubando o fogo dos deuses, alcança ainda as bênçãos e a
força para enfrentar as adversidades e bençãos da Arca de Pandora.



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