"NEBRO"
NEBRO
“Por
mim se vai das dores à morada,
Por mim se vai ao padecer
eterno,
Por mim se vai à gente
condenada,
Moveu justiça o autor meu
sempiterno,
Formado fui por divinal
possança,
Sabedoria suma e amor
supermo.
No existir, ser nenhum
avança,
Não sendo eterno, e eu
eternal perduro,
Deixai, ó vós que entrais,
Toda esperança”.
De: A Divina Comédia
Dante Aleghieri
NEBRO
INTRODUÇÃO
“QUEM É VICTOR”
Víctor é um homem de trinta e poucos
anos que na aparência demonstra ser mais jovem. Não é um homem comum, ou
melhor, a maneira como conduz sua vida é pouco comum.
Excêntrico e descomedido por natureza,
dado inclusive aos vícios não é porém, de forma alguma medíocre. Antes possui um
espírito indagador e vive tocando as raias da marginalidade do meio sócio
cultural do qual é contemporâneo. Mas isso não importa, pois o que de espantoso
Victor viveu em sua existência, poucos homens talvez tenham vivido. E é isto
que será aqui narrado.
VICTOR EM SEU APOSENTO
PRIMEIRO
CANTO
Noite
ou dia não o sei,
Mas
a chama à luz se faz,
E em
êxtase
E
audácia meu espírito
Se
apraz.
Crio
e recrio,
E
observo ao meu redor,
Que
nada de novo se perfaz.
Isto
torna insubstancial,
O
meu querer,
E se
alma ainda me é por insondável,
O
espírito a enigmas me conduz.
Os
quatro cantos percorro,
E
novidade alguma o olho vê.
O
cru e absorto silêncio,
Resolve-se
em simulacros de sombras,
Nenhum
lampejo renovado,
Em
verdade cruzou o meu olhar.
Infecundidade
é o que me parece,
Haver
em tudo isso.
SEGUNDO
CANTO
No
esquecimento inviolável do túmulo,
Onde
só o vento sibila,
Em
um manso sussurro,
Há
de consumir-se o corpo, a matéria...
E
libertada assim estará a alma etérea.
E
meu espírito indagador e rebelde,
Aos
pés do Olimpo há de encontrar descanso,
Junto
aos deuses soberanos,
Sob
as asas de algum Arcanjo.
Seguirei
então minha jornada,
Invadindo
as eras,
Sem
orbitar em nenhuma esfera,
E
saltando de astro em astro,
Resguardado
de qualquer espera,
Na
fúria dos elementos abrigado,
No
êxtase de um excelso orgasmo saciado.
PRIMEIRA PARTE
“O ALTÍSSIMO PERMITE
QUE NEBRO COMPACTUE COM VICTOR”
NEBRO
Óh!.. Altíssimo permite que eu sacie este mortal em
suas súplicas. Seus lamentos que tão alto se elevam.
ALTÍSSIMO
Desde que não o conduzas a profundezas das quais ele não possa por si
próprio resgatar-se, pois sabes perfeitamente bem que o homem assim como nós, é
comprometido com a eternidade. Concedo-te que te apresentes a ele e lhe
proponhas um preço a sua alma, para que lhe sejam saciados todos os desejos e
anseios de seu coração.
NEBRO
Assim procederei Altíssimo, há tempos não delicio-me em ter um mortal como
servo meu. Prometas tu porém que não interferirás no resgate meu de sua alma
pela hora de sua morte.
ALTÍSSIMO
Nunca interfiro em teus negócios, a menos que te ponhas a ultrapassar os
limites de tua condição demoníaca. Afinal o ser humano é preciosidade a meus
olhos e não permitirei que o corrompas naquilo a que está predestinado. A
realização do paraíso.
NEBRO
Talvez esta seja a oportunidade de desafiarmos o espírito humano a dar
provas de sua magnificência. E, sem tanta beatitude como alguns santos do
passado, provar a nós poder equiparar-se. E quando a obra dos mundos estiver
concluída, que brilhe ele em espectral imponência como sol dentre sois. Penso
que um mortal é capaz de suprir a lacuna retardatária de nossa consumação de
todas as coisas. Abandonada por muitos seres humanos que se perderam na sua
mediocridade e sentimentalismo exacerbados, bem como pela sua falta de ardor
pelo perigo.
ALTÍSSIMO
Da consumação de tudo que há e do cumprimento de todos os tempos sei Eu.
Sei também o quanto te apraz ter um mortal sob teu domínio, e por isso não
barrarei o teu caminho quanto a saciar a sede deste que ora me suplica. Afinal
não é o homem responsável por todos os frutos de seu proceder? De sua humildade
em reconhecer-se elo na realização de uma vontade suprema?
Mas tu que ora argüis sobre a consumação do fundamento de tudo que há e dos
mortais. Arrogas-te a ti próprio um mérito do qual não és real senhor.
Bem, apressa-te em visitar o suplicante. Não te proíbo nada a não ser por
em risco sua essência destinada à eternidade.
SOAM OS CLARINS E FAZ-SE OUVIR AS TROMBETAS. OS CÉUS SE FECHAM E NEBRO
PÕE-SE RUMO A MORADA DE VICTOR.

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