NEBRO CONTINUAÇÃO - 17/05/2019
TERCEIRA PARTE
A JUVENTUDE ETERNA E A RIQUEZA
E Victor indaga de Nebro se este
possui o poder de lhe concder a juventude eterna.
VICTOR
Nebro!
NEBRO
Eis-me
aqui.
VICTOR
Quero
saber de ti se és senhor do poder de conceder-me a juventude eterna.
NEBRO
Sem dúvida posso interferir no processo de degeneração física de teu corpo,
mas advirto-te já que o envelhecer proporciona ao homem descanso e resignação
perante a vida. A juventude eterna é, sem dúvida, uma tentação. Reflete no que
te digo agora.
VICTOR
Espera ocorre-me agora que de nada me valeria a juventude eterna, sem ser
eu senhor de riqueza e fortuna suficientes para satisfazer-me em todos os
desejos de meu coração. E porque não dizer os de minha carne, por todos os dias
de minha vida.
NEBRO
A isto também posso dar jeito. Mas insisto para que me ouças e não venhas
mais tarde a alegar que não te alertei eu da possível e fatal desventura tua
naquilo que ora me suplicas.
VICTOR
Muito bem... Diz logo o que tens a dizer.
NEBRO
Ouve-me pois agora com
atenção naquilo que te direi. Mortal tardio em sabedoria e voraz nos prazeres
da carne. Certo é que o jovem demora mais a fadigar-se que o velho, mas
considera que por isso mesmo é atributo do jovem o trabalho. É inegável que a
juventude implica ainda no exercício dos prazeres da carne e nas paixões por
vezes desenfreadas. Quanto aos primeiros são de natureza efêmera e implicam em
ato contínuo, num lapso de tempo, um êxtase sexual vivido é esquecido. E isso
vale para todos os demais prazeres da carne. E entenda ó mortal, néscio e
carente de virtude e discernimento, por virtude o usufruir de todos deleites e prazeres
da vida, sem se tornar escravo de nenhum deles. Quanto às paixões podem ser
motivo de dor e sofrimento incomensuráveis. Recorda-te de quando vim a ti pela
primeira vez? Era com a paixão que tu te digladiavas, e safar-se da vida com
tuas próprias mãos era idéia que não te escapava da mente.
Vê se abrem os olhos e
percebe no que te digo, que a juventude tem sim, sem dúvida seus encantos, mas
é na velhice que o homem certamente encontrará, não só refrigério para sua alma
bem como, descanso para sua carne extenuada pelo trabalho. Os sentimentos na
velhice podem permanecer intensos. O amar e o odiar são então como um hábito e
as paixões, de chama ardente que foram, torna-se em brasas que sem labaredas
aquecem.
Quanto à fortuna e riqueza,
parece-me inteligente de tua parte aliá-las à condição de eterna juventude.
Porém, desde já eis que te afirmo eu: “Cedo ou tarde morrerás esteja tua carne
engelhada e teus cabelos por cãs, ou do contrário, lhe sejam os ossos por vigor
e tua fisionomia jovial. De qualquer forma morrerás. E embora talvez desfrute
teus dias de êxtase em êxtase, há risco de que te iludas ao pensar, que o ouro e o dinheiro tudo pode
proporcionar-te. E creio, que se não és de todo estúpido, sabes que há coisas
que não possuem um valor que o dinheiro possa comprar.
E advirto-te mais ainda uma
vez: “Cuida para que as paixões não se apossem de ti, pois caso isso se dê,
incorres no risco de retornar a condição na qual te encontrei”.
VICTOR
Era só o que me faltava,
eis que o demônio com o qual compactuei-me, me sai agora como um beato de
longas e enfadonhas palavras. Desprezo teu zelo por mim. E nem creio que seja
para ti de real importância que trilhe eu os caminhos da virtude, quero crer
antes que te delicias com minha bestialidade. Sendo assim deixa de lado essa
eloqüência que só fica bem naqueles que em sinceridade se ocupam da caridade .
Vieste a mim como dádiva das
trevas que o seja, mas me és fomento a minha fé. Fé no espírito, fé no além
túmulo.
NEBRO
Aí está um mortal deveras firme naquilo que lhe é por anseio, e quase
milagrosamente desavergonhado de admitir, que a carne pode até mesmo matar o
espírito. Conceder-te-ei o que me pedes.
VICTOR
Então vamos, apressa-te. Meu coração já bate acelerado só em imaginar-me
senhor das dádivas que estou prestes a alcançar.
NEBRO
Quanto à juventude eterna
procederás da seguinte forma para alcançá-la. Toma estes grãos de romã que ora
te dou e mistura-os com vinho em uma taça, acrescentando com três gotas de
absinto.
Em seguida vai para diante
de um espelho e, entornando a taça, pronuncias as seguintes palavras: JEVRON
ETRON JEVRON.
No que concerne à fortuna,
a que nunca venha te faltar riqueza, agirás da seguinte maneira: Adquirirás um
pequeno baú de madeira onde depositarás alguns dobrões de ouro e notas. Então
sempre que te houver por bem sacar determinada quantia, baterás com os nós dos
dedos no tampo por três vezes e pronunciarás: ASMODEU, ASMODEU, ASMODEU. A cada
dobrão ou nota que dele sacardes, o triplo te será acrescentado.



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