"ANJO SEM ASAS" - 09/05/2019 - CONTO
ANJO SEM ASAS
Na beirada do final do dia, quando o sol se põe no horizonte
ele então resplandecia feliz como se começasse um diálogo com a noite que
estava prestes a chegar.
E articulava mesmo palavras de saudação às estrelas e à lua
que ansioso aguardava contemplar no firmamento.
Seu paraíso era a escuridão a luz sempre lhe cegou. E
sentia-se predestinado às trevas na
eternidade de seus dias. Seu coração batia violento no peito e transparecia em
seu olhar o brilho de sua paixão pela noite. Era o tipo de pessoa que divagava
constantemente com os pensamentos sempre dispersos sem
concentrar-se com profundidade em coisa alguma.
E ambicionava na verdade um reinado só seu na reclusão de um
castelo erguido pela imaginação. Era
mesmo capaz de ver o castelo já pronto –
o que seria seu paraíso íntimo. Que esperava herdar após a morte.
Olhava para sua
própria mão e a via ornada com belo anel
de pedras preciosas. E deslizava então as mãos – pela concretude do pensamento – nos pilares que sustentavam sua
magnífica construção imperial. Um rei era ele então ambicionando um império.
Caminhava sempre solitário... Não requisitava companhias e na
pureza de seu coração entregava em oferenda aos céus toda sua ambição de
alcançar o seu reinado, o seu império.
Rememorava amores do passado e deitava oferendas ao que se
fora, e ornava a cabeça com a coroa de espinhos das saudades mais profundas.
Indagava da vastidão da terra, que sabia impossível percorrer
toda numa só existência. Bem como ao contemplar os céus na escuridão da noite,
quedava-se estarrecido do encanto e magia que lhe causavam as estrelas e a lua
argêntea.
Ponderou consigo que a melhor forma de alcançar paz para as
inquietudes de sua alma, bem como as controvérsias em seu espírito seria buscar
a morte sem temor.
Guardava no íntimo de seu coração que não encontraria
condenação se por si próprio pusesse final aos seus dias.
Certa feita viajou para um lugar distante onde sabia
encontraria o mar bem como encostas e abismos onde se debatiam as ondas.
Chegou no local era ainda dia. À noite, solitário percorreu o
caminho em direção as águas do mar.
A lua estava clara e ele não teve dificuldade em escalar o
alto de uma das colinas que beirava a região, e onde as ondas se debatiam
violentas.
Sentou-se num local de onde pudesse enxergar o mar e o céu
com o luar encantador.
Sem dar-se conta adormeceu, porém mal o sol despontou no
horizonte, ele feito um anjo sem asas, movido pela fé intima em seu coração.
Seguro do paraíso todo seu que o esperava. Atirou-se ao mar, do alto do
precipício.
Dias depois, encontraram seu corpo nas areias da praia,
vomitado pelas ondas.



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